Discurso de posse
Na última sexta, dia 19, tomaram posse os novos diretores da Agência Nacional do Cinema. Eu tive a oportunidade de, em meu discurso, agradecer os amigos e me apresentar ao setor.
Abaixo, a íntegra do meu discurso.
Senhor Ministro da Cultura Juca Ferreira, meus companheiros de diretoria colegiada, Manoel Rangel, Mario Diamante, Paulo Alcoforado; demais componentes da mesa; senhores e senhoras produtores, distribuidores, exibidores, atores e técnicos do cinema brasileiro; servidores e servidoras da ANCINE; meus amigos, meus familiares a todos vocês, obrigado pela presença.
Bom dia!
Fazer cinema é, antes de tudo, contar histórias. Gostar de cinema é, mais do que qualquer outra coisa, gostar de boas histórias e de histórias bem contadas.
Minha aproximação com o cinema, como todos sabem, não é profissional, nem minha primeira militância. Mas ela vem sendo concebida há muito tempo e gerada de maneira heterodoxa.
Meus pais... Quanta coincidência…
Quantas vezes eu tive de explicar que “Glauber”, o nome esquisito que muitos me pediam pra soletrar, era uma homenagem a um cineasta genial.
Certamente nem o senhor, papai, nem a senhora, mamãe, quando decidiram pelo meu nome, imaginaram que um dia eu e meu nome nos encontraríamos aqui, na direção da agência nacional do cinema.
Papai, mamãe, muito obrigado. Não só pelo nome, claro, mas por me apresentarem às muitas histórias que compartilhamos ao longo dos anos.
A memória que mantenho mais viva de minha iniciação no cinema é da minha avó materna, que insistentemente me levou a assistir Mazzaropi, Os Trapalhões e Super-homem. Ela também não percebia a semente que plantava.
Por falar em sementes e boas histórias, hoje eu apresento a minha a vocês. Erika, minha companheira, e Théo, meu filho.
Vocês me têm sido o grande suporte e estímulo para essa mudança para o Rio e para a re-elaboração das nossas vidas. É o seu compromisso, Erika, com um mundo mais saudável que me alimentou nos últimos tempos. Que a vinda pra cá nos ajude a contar e viver boas histórias com o Théo.
Além dos agradecimentos óbvios, ainda que justos e necessários, quero agradecer também algumas pessoas que ao longo dos últimos anos tiveram contribuição decisiva na minha militância.
Quero agradecer aos meus companheiros de Votorantim, onde fui Secretário Municipal de Cultura. Principalmente ao Pivetta, hoje prefeito, e ao Vande, secretário de Governo.
Agradeço aos companheiros do Fórum de Dirigentes Municipais de Cultura de SP. Alguns estão aqui presentes e um de vocês hoje compõe minha equipe de trabalho.
Lima, amigo e irmão, quero reafirmar a você o desafio para essa caminhada. “Tamo junto”, meu caro! O mesmo vale para os demais companheiros da assessoria: Angelisa, Ana Cecília, Eduardo, Marla, Lucivaldo, PC.
Agradeço também a outros quatro companheiros que foram decisivos na minha vinda para a ANCINE. O deputado Ricardo Berzoini, o senador Cristovam Buarque, Pedro Tierra, poeta gerado na escuridão da noite, e Nilson Rodrigues, ex-diretor da ANCINE que hoje substituo.
Agradeço ao ministro Juca Ferreira, com quem já travei saudáveis debates sobre gestão cultural e que prontamente me indicou para compor a diretoria colegiada da ANCINE.
Sou grato a vários outros amigos que têm me acompanhado nessa boa história que venho tecendo a muitas mãos. Não vou citar nomes, mas reafirmo aqui meu companheirismo.
Talvez o contador de histórias que mais me encanta seja Guimarães Rosa, que não fez cinema, mas narrou imagens que ainda se movimentam entre nós.
De Grande Sertão: veredas de vez em quando eu saco um punhado de imagens para fazer os sonhos dialogarem com a lida.
“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim. Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”, disse ele.
E gestão pública de cultura, em qualquer lugar do mundo, exige responsabilidade e coragem.
É a partir desta perspectiva que me apresento e me somo ao trabalho de servidores e diretores da ANCINE, e ao próprio Ministério da Cultura, na gestão das políticas para o cinema brasileiro.
Há alguns anos o mundo passa por uma grande transformação com a digitalização de sons e imagens, ampliando a circulação de informação e gerando aumento significativo na demanda por imagem.
Essa conjugação entre ampliação da demanda e de meios de difusão está criando uma série de novas oportunidades e de novos modelos de negócio aos quais todos devemos estar atentos.
Hoje, não se pode pensar o Cinema fora do ambiente do Audiovisual, o que não significa que a produção especificamente cinematográfica tenha perdido sua importância.
Pelo contrário!
Esse novo ambiente de convergência conferiu ainda mais força ao Cinema, que é hoje a principal plataforma de lançamento de produtos audiovisuais, com grande capacidade de irradiação para outras mídias.
O cinema permanece como o principal elemento definidor do valor de uma obra e estimula os demais elos dessa cadeia.
O cinema é o grande estimulador deste consumo.
Mas cinema é muito mais do que isso.
Cinema é linguagem, antes e muito além de janelas e corredores.
É por isso que devemos ter consciência de que esse novo cenário reafirma por um lado a importância do Cinema para a economia do audiovisual e, por outro, torna impossível pensar políticas para o cinema sem considerar o contexto mais amplo no qual ele está inserido.
A conseqüência deste fenômeno é reafirmar a importância do Cinema e do Audiovisual para o processo civilizatório, pois mais do que um importante setor da economia que emprega, gera riqueza e alavanca outros setores, estamos tratando de um dos principais fatores de formação das identidades de cada povo e uma forma de expressão privilegiada do pensamento.
O Cinema é um registro do acúmulo de reflexões sobre quem somos e que nação queremos construir. Nesse aspecto, é o registro dinâmico das nossas utopias.
Essa importância do Cinema implica em que a política pública para o audiovisual seja objeto do interesse do conjunto da nação brasileira e não apenas daqueles que atuam profissionalmente nessa área.
A indústria do Audiovisual, e destacadamente o Cinema, são muito maiores do que o espaço que ocupam. O cinema brasileiro é maior que o próprio cinema brasileiro.
Não se trata apenas de um setor relevante da economia e sim de um dos principais fundamentos para a afirmação do nosso povo e da nossa nação diante do mundo.
Nos seus oito anos de existência, e sete de efetiva operação, a Ancine se consolidou como referência para o conjunto da indústria do audiovisual.
Uma das ações mais bem sucedidas da agência foi ter desenvolvido diversos mecanismos de incentivo, abrindo um amplo leque de alternativas para um amplo espectro de necessidades.
Hoje, a agência opera com vários mecanismos de incentivo:
· o fomento direto a fundo perdido;
· o investimento retornável por meio de fundos ou certificados de investimento;
· o financiamento via BNDES, por exemplo;
· o patrocínio privado com isenção fiscal; e
· a co-produção entre empresas programadoras de TV, ou empresas distribuidoras de cinema, e produtores independentes;
Mais recentemente e com enorme destaque, a ANCINE participou da criação, pelo governo federal,
· do Fundo Setorial do Audiovisual, um mecanismo com múltiplas funcionalidades.
Dentre todas as modalidades de fomento, porém, eu quero destacar uma que me parece fundamental, pois estimula o compromisso de produtores, distribuidores e exibidores com o cinema brasileiro e com o resultado de seu trabalho.
Eu me refiro à premiação pelo desempenho pregresso como ocorre no Prêmio Adicional de Renda e no Prêmio ANCINE de Qualidade, que são experiências que devem ser fortalecidas.
Vale destacar também que a agência tem produzido bons resultados para além do fomento.
Ela criou sistemas de registro e acompanhamento das atividades econômicas que permitem começar a conhecer a verdadeira dimensão dessa economia e inicia uma fiscalização regulatória que irá contribuir para o fortalecimento das boas práticas e promoção de maior equilíbrio no mercado.
Recentemente, a ANCINE passou por um amplo e participativo processo de Planejamento Estratégico, que demonstra sua vontade de qualificar seus processos de gestão.
Ao longo da minha vida pude participar de diversos processos de planejamento participativo e sou testemunha da capacidade que eles têm de conferir um senso de compromisso e pertencimento que se reflete no dia-a-dia das instituições.
Que saibamos alimentar e estimular o diálogo deste planejamento com a dinâmica real da casa.
Aqui quero valorizar o fato de a ANCINE haver preparado um quadro de servidores com alto nível, envolvidos pelo constante esforço de qualificar os procedimentos e o atendimento dispensado aos usuários, e capazes de contribuir ainda muito mais na formulação e gestão das políticas públicas.
Em meu discurso diante da comissão de educação e cultura do Senado, enumerei uma série de novos desafios que hoje se colocam diante da ANCINE.
Embora alguns de vocês já conheçam o que falei no senado, quero repetir alguns temas.
É urgente que a ANCINE induza a expansão e desconcentração do nosso parque exibidor, ajudando a desenvolver novos modelos de negócio que tornem sustentável a manutenção de salas em pequenas e médias cidades e em bairros de população com menor poder aquisitivo.
Devemos nos envolver mais no combate à pirataria, na elaboração de políticas de incentivo específicas para as videolocadoras, nas estratégias de colocação da nossa cinematografia nos mercados internacionais e no debate sobe a formulação de novos marcos regulatórios para a Comunicação e para a Cultura.
Precisamos estimular ainda mais o relacionamento entre a produção independente e a televisão.
A possibilidade de produzir para a TV ou de licenciar uma obra já lançada nos cinemas é um dos elementos centrais no planejamento de uma empresa produtora ou distribuidora independente de audiovisual. Neste aspecto, é infrutífero e pouco inteligente pensar o cinema divorciado da televisão.
No Brasil, precisamos avançar nessa direção.
Precisamos avançar, também, no fomento ao consumo, que têm o potencial de estimular todos os elos da cadeia produtiva do Cinema e gerar sustentabilidade ao conjunto do setor.
O Vale Cultura é uma proposta central do Governo Federal e que, para a cadeia produtiva do cinema, sinaliza com perspectivas de sustentabilidade e descentralização.
Grande parte das distorções que marcaram a história das políticas culturais no Brasil resulta da quase exclusividade dos investimentos públicos no fomento à produção de obras em detrimento da sua circulação, exibição e, principalmente, do seu consumo.
Fomentar o consumo não significa deixar de fomentar a produção.
Antes, indica a necessidade de apontar o alvo do incentivo estatal para todos os elos das cadeias produtivas, adotando uma perspectiva sistêmica para as políticas de fomento que possibilitem um efetivo impacto regulatório, gerando um mercado mais equilibrado, sem os gargalos que hoje existem e estruturado sobre empresas consolidadas.
Um tema que considero especialmente importante para a sustentabilidade da economia do audiovisual é a necessidade de passar a fomentar não apenas os produtos e serviços dessa indústria, mas antes, estimular que se estabeleçam empresas mais fortes, estimuladas à cooperação e à associação, e melhor instrumentalizadas para uma gestão planejada e eficiente.
Por esse motivo, venho advogando que deva ser uma meta da ANCINE combinar as políticas de apoio a projetos pontuais com o fomento a estratégias de sustentabilidade empresarial de médio e longo prazos, apoiando os planos de negócio e a estruturação de empresas.
A sustentabilidade de qualquer processo produtivo se alcança com qualidade, planejamento, continuidade e escala. Isso não é diferente para o Cinema e deve ser induzido pela agência.
Outro aspecto fundamental é reafirmar o papel formulador e articulador do Conselho Superior de Cinema, com o qual a ANCINE deve estar em permanente interlocução, buscando solidariamente os melhores caminhos para a sustentabilidade do setor.
O cenário atual do Audiovisual traz esses e outros novos desafios, mas não podemos esquecer que existe ainda um passivo a ser superado e o papel da ANCINE é apoiar o cinema nacional a encontrar alternativas para que nossos filmes sejam mais vistos ao mesmo tempo em que são fortalecidos os diferentes elos dessa cadeia produtiva.
A complexidade desse cenário exige uma atuação sistêmica, com foco no resultado, orientado pelo interesse público.
Quero pautar minha atuação na ANCINE por esses princípios, contribuindo para ampliar os canais de interação da Agência com o conjunto da sociedade, com universidades e centros de pesquisa, com outras instâncias e órgãos de governo e com os agentes do setor.
Quero participar da consolidação de uma cultura de gestão que valorize o planejamento com visão de futuro, tanto para a ANCINE como para o mercado e, sobretudo, zelando para que o interesse público continue a ser o eixo orientador das nossas ações.
Por fim, retomando Guimarães Rosa, quero lembrar que “sapo não pula por boniteza. Pula por precisão”.
A economia do cinema e do audiovisual precisam de uma ANCINE dinâmica e disposta a fortalecer seus elos e seu conjunto, assim como todos precisamos que o cinema brasileiro se diversifique e complexifique.
Que ninguém acredite que nosso market share será multiplicado com passes de mágica. Aumento do parque exibidor, embora seja fundamental, não resolverá todos os nossos problemas, assim como aumento de cota de tela ou outros soluções isoladas também não o fariam.
Precisamos estimular que nossas boas histórias cheguem ao nosso público. Brasileiro gosta de filme brasileiro. É aí que nos enxergamos.
Mas precisamos, crescentemente, ter filmes que dialoguem com nossa diversidade etária, geográfica e cultural.
Comédias, documentários, infanto-juvenis, dramas, experimentação de linguagem... ingressos mais baratos, salas em mais cidades e para todas as classes...
Estratégias várias que estimulem o hábito de ir ao cinema e gerem sustentabilidade.
Caminhos mais planos para o desfile de nossas histórias.
O nosso sapo pula por precisão, pula porque precisamos produzir, distribuir, exibir e consumir nossas histórias. Mas ele também já está pulando cada vez mais por boniteza. Isso já é meio caminho andado.
Hoje eu me apresento para a próxima etapa deste caminho.
Muito obrigado!
Glauber Piva
3 comentarios:
Talvez este não seja o espaço propício para isto, mas foi o que eu encontrei para parabenizá-lo por todas as conquistas, inclusive o filhotinho. Parabéns, um grande beijo. Dani Dias - Votorantim
Obrigado!
Glauber, sou Vincent Carelli da Vídeo nas Aldeias, uma escola de cinema para índios. Tenho tido muitos problemas com a ANCINE por conta dos CPBs (do filme Placa não Fala). Há meses que este processo está paradoe a TV Brasil que se antecipou no lance exibindo o filme agora não me paga porque o CPB não sai. Posso ter a ajuda de alguém para resolver isso.
Agradeço a sua atenção
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